4 de dezembro de 2011

Dr. Zuccas

Eu estava sentado na cozinha tomando meu café da manhã e vi na televisão a notícia do falecimento de um famoso doutor… o Dr. Sócrates. Jogador de futebol de grande talento e médico por formação. Deus, ironicamente, deu ao Dr. Sócrates o diploma de médico que praticamente nunca foi usado e talento para jogador de futebol (que foi exaustivamente utilizado).
Minha mãe – que também estava na cozinha – então falou da morte de outro doutor… o Dr. Zuccas.
Obviamente nem todos vão conhecer este nome. Mas ele também foi um homem público. Aliás, com certa notoriedade. Algis Waldermar Zuccas foi filho de refugiados da Revolução Russa e nasceu em 1929. Seu pai era dono de uma farmácia e ali ele tomou gosto pela área da saúde. Em 1948, entrou na Escola Paulista de Medicina e graduou-se médico com especialização em pediatria.
Trabalhou por toda sua vida como médico pediatra na Mooca. Seu consultório ficava instalado na Rua Pirassununga e ali, em um casa com duas salas transformadas em ambulatório e uma sala de espera, o Dr. Zuccas tratava dos pequenos.
Ele trabalhou com saúde pública, participando de programas epidemiológicos para o controle do sarampo e meningite. Pertenceu ao Rotary Clube (Alto da Mooca) e foi chefe de gabinete do Secretário Municipal da Saúde na gestão Jânio Quadros.
Para mim, ele foi mais importante do que tudo isso. Foi o médico que me inspirou a cursar medicina. Em suas consultas ele pacientemente ouvia todas minhas perguntas e respondia a todas elas com muito carinho e de uma forma que eu pudesse compreender. Eu perguntava sobre a doença, sobre o remédio, sobre o funcionamento do “tetoscópio”… tudo respondido gentilmente por aquele senhor que me inspirava. E que em todas as suas consultas eu dizia: “Quando eu crescer, quero ser um médico igualzinho ao senhor”.
Em foi no dia 03 de Março de 1995 a última vez que eu o vi. Neste dia fui até consultório não como seu paciente, mas como futuro estudante de medicina da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP. E lembro até hoje de minhas palavras:
Hoje eu vim aqui para contar ao senhor que finalmente eu consegui cumprir minha promessa… eu entrei na faculdade de medicina e terei a oportunidade de ser um médico tão bom quanto o senhor. Eu queria poder contar isto para o senhor. E queria pedir para o senhor que me aconselhasse o que devo fazer daqui para frente.
Em sua serenidade habitual, ele me disse:
Você deve estudar muito a Anatomia e a Fisiologia que são as bases da medicina. Mantenha-se concentrado e estude muito porque a faculdade exigirá isto de você. Ao praticar medicina, você deve se lembrar sempre de ouvir tudo o que seu paciente venha a lhe dizer. Por mais simples que seja, por mais confuso que lhe pareça, você terá nas palavras do seu paciente a solução de muitos diagnósticos. Eu fico muito feliz em saber que aquilo que faço serviu de inspiração para um jovem inteligente como você.
Ele me deu um abraço e me desejou sorte e ainda disse que quando estivesse formado, poderia voltar ali para visitá-lo, desta vez como um colega e não como um paciente. Eu lhe disse: “O senhor tem a minha promessa”.
O que eu não sabia é que nenhum de seus filhos seguiu a carreira médica e que seu consultório, após 58 anos de funcionamento fechou em 2011.
Eu nunca consegui cumprir a promessa e envergonhado, nunca mais retornei ao seu consultório…
Doeu saber que o homem que me mostrou como se deve praticar medicina não está mais por aqui. Faleceu em 11/08/2011, vítima de câncer na próstata. Deixou viúva e três filhos, além de cinco netos.
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Algis Waldemar Zuccas (1929 – 2011)
Médico – CRM 1734/SP

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