16 de novembro de 2012

Quando puxar o gatilho

por Carlos Aros



Estava buscando um assunto sobre o qual escrever em meu post de estreia aqui no blog quando recebi um email com o texto “O lamento de um dinossauro”, publicado na Folha de S. Paulo e que você pode conferir aqui . O artigo foi escrito pelo jornalista Mario Chimanovitch, que tem mais de quatro décadas de profissão e hoje sente que não se encaixa mais nos padrões, não acompanha mais a evolução das coisas e vê que a experiência (não só profissional, mas de vida) acumulada ao longo de 40 anos não serve mais para nada hoje em dia.

O texto mostra a obsolescência, que antes eu pensava se aplicar apenas às coisas, aos objetos, mas que vejo se aplica também às pessoas. A todo instante somos ameaçados pelo novo. A renovação necessariamente é benéfica e não se admite o contrário. Ao meu ver, no entanto, não é bem assim.
Entendo que é necessário olhar para trás e buscar na experiência daqueles que já viveram e passaram por muita coisa nesta vida uma lição. Só assim, seguindo pelo caminho de pedras que nos leva a não pisar no rio gelado, é que conseguimos atravessar de uma margem para a outra. 

A situação vivida por Chimanovitch é totalmente compreensível para mim. Entendo perfeitamente o que ele vive não porque esteja vivendo a mesma coisa, mas porque escolhi a mesma profissão que ele e sei que nas redações atualmente não há tempo para perder gastando sola de sapato. O imediatismo, a notícia da mão para a boca, como diria um professor meu, exige dinamismo e rapidez, a internet e o telefone entram em ação e o mundo do repórter se torna aquele que o Google é capaz de mostrar.

Questionar os benefícios ou malefícios da tecnologia para a profissão não fazem parte da proposta deste rabisco, mas refletir se a aplicação dela exclui o valor inestimável da experiência, do conselho e da sabedoria dos mais velhos. 

Recentemente entrou em cartaz nos cinemas o 23º filme da franquia 007: Operação Skyfall, com Daniel Craig no papel do agente secreto. Neste ano, James Bond completa 50 anos, exatamente, meio século! Da época em que foi escrito por Ian Fleming até hoje, muita coisa mudou: os Russos não são mais o grande inimigo, e as parafernálias tecnológicas inventadas por Q já não mais encantam os jovens que têm Iphones, Ipads, etc.

Em Operação Skyfall, que é um excelente filme, diga-se de passagem, o agente secreto, assim como o jornalista Mario Chimanovitch, é confrontado com sua própria obsolescência. Bond descobre que o mundo mudou e que um jovem sentado atrás de um computador pode resolver uma crise. Mas antes que a necessidade de sua existência e de sua licença para matar seja questionada, Bond responde: ‘é preciso saber quando puxar o gatilho”.

A resposta de Bond, em minha opinião, resume toda a importância da experiência. A questão não é saber atirar ou enviar um míssel que resolva o problema, ou no caso dos jornalistas, saber o que fazer a partir de modelos pré-estabelecidos aprendidos na faculdade. A questão é saber o que fazer quando uma dificuldade se apresenta diante de você. 

É nesse momento em que você revê todos os livros da faculdade, acessa milhares de páginas mostradas pelo oráculo da modernidade, o Google, e nota que a resposta está única e exclusivamente com aqueles que já experienciaram aquela situação. Só então damos valor para a experiência.

Não importa a época, não importa a idade, o que faz a diferença é saber quando puxar o gatilho.

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