23 de outubro de 2013

O suicida

A crônica é um gênero literário que eu simplesmente adoro. Sou fã do Luís Fernando Veríssimo, Moacyr Scliar, Machado de Assis, entre outros. E na época da faculdade eu também escrevia algumas crônicas para o jornal da faculdade.
Esta crônica foi publicada em algum “O Patológico” entre 1996 e 1997. Espero que gostem…
O décimo sétimo andar parecia perfeito para meu vôo. Nem baixo o suficiente para que eu caísse sem morrer (e então ser – argh! – hospitalizado), nem muito alto para que eu me arrependesse no meio da queda e quisesse voltar. Sim, dezessete andares eram o que eu precisava para morrer de um jeito chamativo, um tanto trágico e com um toque de cafonice, embora fosse pouco criativo ou original. Mas, aos diabos: grandes exemplos existem para ser imitados, e, além disso, eu adoro vertigens.

Ah... por que eu queria me matar? Bem, eram os motivos de sempre: o mundo é sujo, feio e mau, as pessoas são falsas, as mulheres me desprezam, meus melhores amigos sequer pertencem à classe dos vertebrados, a televisão é colorida demais, feliz demais e, portanto, estúpida demais. Em outras palavras, procurei e não achei sentido algum na vida, que para mim era uma experiência inútil, visto que tudo vai acabar um dia, então o mais lógico para mim seria abreviar o sofrimento e ir logo para o tal escuro.
Mas, já que era a última coisa que eu ia fazer, que fosse feita com estilo.
Olhei para baixo. Chovia. Já era noite. Lá embaixo, apenas seres que para mim nada significavam. Ok.
Que rufem os tambores da aurora apocalíptica! Que soem as trombetas dos anjos de primeira classe, classe executiva e classe turística, porque eu também sou povo! Que vibrem as cordas que formam, entrelaçadas, o grande tecido do universo! Que as luzes brilhem sobre mim com a máxima intensidade. (Hmmm… um tanto cafona…)
Pulei.
Vi que, uma vez em queda livre, o tempo passava mais devagar para mim. Talvez isso comprove que Einstein estava certo (eu não sei a teoria da relatividade). O fato é que, desse modo, podia sentir com mais intensidade o vento e a chuva no meu rosto, percebia e analisava com calma todo e qualquer detalhe ao meu redor. Sem dúvida, eu estava em perfeita paz de espírito. É uma experiência que eu definitivamente recomendo. Se não fosse a conseqüência final do ato, pular de prédios altos poderia ser mais uma arma para combater o stress.
Filosofei sobre a intransigência do meio enquanto ser afluente, sobre o sexo enquanto trauma e antitrauma, sobre o poder dos macacos de Madagascar que...
SPLOT.
Filosofei sobre mais nada, já que estava tudo escuro e nooosa! Isso aqui é o maior barato!
Meu... que paz. Tudo escuro!
Ack! Algo mole e grudenta entrou na minha narina e saiu.
Mas como é que morto eu sentia a minha narina? Aliás, como é que tinha uma narina? Eu morri, seus idiotas, sou uma alma ou um espírito ou um nada, mas certamente não tenho narinas!
Ack! A coisa nojenta quase entrou na minha boca.
Boca ?! Meu Deus, que boca?! Alguma coisa está lá fora...
Abri meus olhos (??) e tentei olhar (???) ao meu redor. Foi aí que eu entendi: eu não tinha morrido, estava vivo, respirando e funcional!
Merda...
E, como se isso não bastasse, um cachorro com cara de amistosa, babando horrores, estava em cima de mim lambendo meu rosto com tamanha fúria e desespero que eu achei que estava com gosto de Frolic.
“Cough, cough. Ach. Oof. Agh”. Eu tossi.
“Woof”. Ele latiu.
Aproveitei a distração do bicho para afastá-lo com meu braço – que sim, funcionava! – e ainda consegui me levantar.
“Vivo”, pensei. O cão ainda me lambia enquanto eu avaliava a situação.
Eu não estava lá embaixo, na rua, como era de se imaginar. Eu também não estava na minha cidade, ou em qualquer cidade. Nada disso. Eu estava em uma praia quase deserta, na areia, próximo ao mar, com aquele cachorro branco de manchas pretas demonstrando afeto de seu jeito animal. E vivo.
Vivo, com a roupa cheia de areia, um tanto úmido, e o rosto grudento. Nada mal para quem não tomou banho ontem.
Respirei profundamente, enquanto tentava entender o que havia acontecido.
























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