3 de setembro de 2014

Divagações de um homem aos quarenta anos

Ainda me lembro do dia em que completei 18 anos… Diferente da maioria das pessoas, eu planejei com alguma antecedência o que faria quando atingisse a maioridade no dia 03 de Setembro de 1992.

Eu resolvi que naquele dia iria passar sozinho…

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Não sei exatamente o que me motivou a fazer isso. Acho que para mim, seria uma espécie de “rito de passagem”. Uma espécie de porta entre a adolescência e a vida adulta. E que por alguma boa razão que agora me escapa, eu teria que realizar sozinho.

Assim, naquele dia, acordei bem cedo… 05h00 da manhã. Eu estava no cursinho pré-vestibular então já acordava cedo. Mas havia planejado não ir à aula.

Após vestir algumas roupas, abri a porta do meu quarto para sair e também para soltar o Piolim (meu gato). Em frente, minha mãe deixou algumas sacolas com presentes. Eu os coloquei em meu quarto e desci. Ganhei as ruas mesmo sem café da manhã.

Peguei um ônibus para a Praça da Sé. Me pareceu um bom lugar para começar. Perambulei pelas imediações e fui até a Avenida Liberdade. Ali, parei em uma lanchonete. Comi um pão de queijo, um copo de suco de laranja.

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Voltei a andar. Achei que seria uma boa ideia seguir pela avenida e em pouco tempo alcancei a Rua Domingos de Moraes. Não sabia ao certo porque estava ali, então embarquei no Metrô na estação Ana Rosa e segui até o Jabaquara.

Lembro que na época eu tinha um Walkman da Sony. Era praticamente impossível sintonizar alguma estação de rádio, mas sempre tinha uma ou duas fitas cassete na mochila. Eram músicas que eu gravava no rádio de casa. Gravava músicas da rádio Jovem Pan 2, 89FM e algumas da Metropolitana. Nisso eu mudei bastante… minhas rádios favoritas hoje são CBN, BandNews e as vezes Antena 1 ou Alpha FM.

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Cheguei ao Jabaquara… sem muita inspiração segui o caminho inverso até a estação Santana. O bom de viajar pelo metrô sem um destino definido é que você pode olhar o mundo ao redor. Assim, vi a marginal tietê completamente parada, vi a Escola Técnica Federal, vi um Kibutz (ou pelo menos algo que eu achei ser um…). Vi pessoas entrando e saindo. Alguns sérios, outros sonolentos, alguns conversando efusivamente.

Eu estava ali ouvindo minhas músicas e pensando… o que será da minha vida daqui pra frente?

Pensei em várias respostas… a primeira e mais óbvia para quem me conhece foi “Quero ser médico”. O fracasso do ano anterior me deixava um tanto inseguro. Mas eu acreditava que seria capaz de entrar na faculdade.

Depois pensei… “Quero casar”. Eu me imaginava andando pra lá e pra cá em um Monza vermelho (oras… era o carro da moda na época) com minha família. Pensava em dois ou três filhos… pensava em uma esposa (apesar de não saber definir exatamente como ela seria).

Aí pensei que poderia ter um consultório ou trabalhar em um hospital. Pensei que eu poderia ceder um dia do meu mês para praticar caridade. Mais especificamente praticar a medicina para pessoas carentes sem cobrar um centavo por isto.

Cheguei a estação Santana. Pessoas apressadas iam e vinham. Algumas ali já tinha família, faculdade, profissão. Outros – como eu – ainda corriam atrás de seus sonhos. E alguns outros pareciam estar inertes.

Ali, na estação Santana do Metrô resolvi pegar um ônibus para lugares novos… assim, fui até a Freguesia do Ó.

Olhava os prédios, as pessoas a paisagem urbana… E um pensamento recorrente me assolava: O que eu estava fazendo aqui? O que eu teria que fazer daquele momento em diante? Qual seria meu caminho?

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Naquele dia 03 de Setembro de 1992 eu andei por toda a cidade. Na verdade, meu plano orginal era ir até o litoral. Não lembro porque desisti da ideia… Pensei naquilo que queria ser. Na pessoa que eu gostaria de me transformar. Pensei em um começo, um meio e um fim…

Deixei de passar por lugares que conhecia para poder conhecer novos lugares. Quis sair da minha zona de conforto. Encarar meus medos e definir o meu ponto de partida.

Ao final daquele dia, tudo o que eu queria era estar pronto para o resto da minha vida.

E eu – na minha juventude inexperiente – achei que os primeiros 18 anos seriam suficientes para me preparar para todos os anos que viriam.

Não foi…

Aquele rapaz – quase um moleque – de 18 anos pensava que aos quarenta anos seria médico, pai de família, responsável por uma clínica ou consultório. Acreditava que a vida não lhe traria desafios que seriam facilmente transponíveis. Estava preparado para colher os resultados de seus esforços.

O problema é que aquele rapaz se preparou para o sonho… mas se esqueceu de algo bem mais simples. Esqueceu-se de se preparar para a vida.

E aí, muita coisa deu errado para aquele rapaz… ele entrou na faculdade de medicina, mas perdeu-se durante as aulas e se esqueceu completamente dos motivos que o levaram a estar ali. Um sonho sem esforço para realizá-lo permanece apenas como um sonho.

Aquele rapaz hoje é um homem de quarenta anos… depois de perder a faculdade de medicina foi trabalhar com informática. Deu aulas por oito anos. Desse período, algo para se orgulhar: sua esposa Ana Paula. Que em breve (muito em breve) lhe dará uma filha. Em outubro, este homem será pai de uma garotinha chamada Mariana.

Hoje, depois das aulas de informática, sou funcionário público. Trabalho em uma escola e algo não muito gratificante. Cuidar da vida funcional dos professores e funcionários não é exatamente um sonho a ser atingido.

Também sou casado e como disse, em breve serei pai. Tenho meus gatos Meg, Mike e Nina e meu cachorro Tobias. Queria o Piolim (ele morreu em 2006 com vinte anos de idade), mas seria muito egoísmo da minha parte pedir que ele ainda estivesse por aqui.

Também tenho meus pais que, apesar da idade estar chegando, estão com saúde e bem. Não posso oferecer a eles tudo o que eles me ofereceram na juventude (e isto talvez seja outra frustração para mim), mas dentro das minhas condições, quero acreditar que estou fazendo o melhor possível. Sinceramente, gostaria de poder fazer mais.

Hoje, completo quarenta anos. Definitivamente, não sou aquilo que sonhei ser. Mas felizmente, não sou mais aquele moleque que pensou que tudo estaria pronto e desenhado e que para atingir meu sonho bastaria esperar.

Meu caminho? Bom… eu ainda penso na faculdade de medicina. Não parece uma ideia tão absurda assim.

Mas no momento, tudo que quero para minha vida agora que cheguei aos 40 anos, é que minha filha venha a este mundo com saúde e que eu possa ensinar a ela alguns valores que me faltaram na juventude e que só aprendi bem depois em minha vida. Quero também que meus pais tenham saúde e serenidade nos anos que ainda lhe restam (e eu espero que sejam muitos). Os sonhos daquele moleque de 18 anos podem esperar até que este homem de quarenta anos faça tudo aquilo que deve ser feito…

O meu caminho é uma estrada… nem sempre reta… nem sempre boa… mas sempre aprendendo a ser algo melhor.

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Ah sim… já ia me esquecendo…

Naquele dia em que completei 18 anos e andei por toda a cidade. Por volta das 19h00 parei em frente a Catedral da Sé.

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As portas da catedral estavam abertas, então resolvi entrar. Sentei em um dos bancos e pouco depois começou uma missa. Assisti a missa inteira (confesso que a homília do padre me emocionou, pois ele falava sobre escolhas para nossas vidas) e ao final dela me dirigi até o padre e contei a ele que naquele dia eu estava completando 18 anos e queria alguma “iluminação”.

O padre era jovem. Ele sorriu e me abençoou. Depois perguntou meu nome e o que eu fazia. “Sou estudante”, respondi. Ele então apertou minha mão, cumprimentou-me pelo aniversário e desejou saúde e sucesso.

Naquela noite, ainda andei pela cidade por mais algumas horas. Voltei para minha casa quando o relógio marcava 0h07 do dia 04 de Setembro. Minha mãe me esperava pois fazia questão de me dar parabéns pelo meu aniversário.

Lembro até hoje de suas palavras… “Filho, porque você quis ficar sozinho em um dia tão importante como hoje?”

Eu não respondi… apenas abracei minha mãe e comecei a chorar.

Eu estava com 18 anos… e ainda era um menino.

E apesar de achar que tudo sairia conforme o planejado, eu estava morrendo de medo…

Considerando tudo o que aconteceu de lá pra cá, não foi sem razão, não é mesmo?

2 comentários:

  1. Nem completei quarenta e já to nessa nostalgia...

    Beijos, http://porredelivros.blogspot.com.br/

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  2. Obrigado por escrever esse texto! Tenho 33 anos e... pois é!

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