25 de outubro de 2015

Pequenas histórias em uma noite de insônia

Quero contar 4 histórias… e eu participei em todas elas. Gostaria de antecipar que algumas delas podem parecer duvidosas ou pouco factíveis (até mesmo inverossímeis). Mas acreditem… todas elas aconteceram.

Primeira história… façamos aquilo que precisa ser feito.

A primeira história aconteceu salvo engano no ano de 1998. Eu ainda morava em Campinas e ainda tinha planos para ser médico. Ainda acreditava que tudo era uma questão de tempo, já que eu fazia faculdade de medicina.

Era noite… e naquela época eu ainda não sabia separar os problemas do coração dos problemas da razão. Era um período que minha saúde se deteriorou na mesma medida que minha saúde emocional estava igualmente afetada. Em resumo… eu sofria da “síndrome do pé-na-bunda”. O fato é que passei a ter picos de hipertensão, crises emocionais, dispnéias. E não procurei muita ajuda na época.

E naquela noite em questão eu mais uma vez voltava do PS do HC-UNICAMP. Comigo estava meu amigo de longa data Michel (sim… o mesmo Michel que escreve no blog. Nem sei se ele se recorda disto…). Voltávamos para o centro de Campinas e eu lhe falava dos meus problemas com a ex-namorada e também com a faculdade.

Em sua sabedoria, Michel me ouviu pacientemente por boa parte do percurso. Quando cansei de me falar, ele então comentou o seguinte:

“Moe*, você de certa forma é um cara privilegiado… sim… privilegiado. Você é um cara que sabe que errou, sabe onde errou e tem a oportunidade de começar tudo novamente. Diferente de muita gente, você pode recomeçar. Simplesmente recomeçar do ponto de partida e fazer novamente o que precisa ser feito. Então, porque ao invés de gastar todas suas energias em lutar contra o que já está feito, porque você não começa a fazer aquilo que realmente precisa fazer?”

(*) Meu apelido na faculdade… Moe.

Engraçado é que passamos boa parte daquela noite conversando. Mas até hoje só consigo me lembrar desta parte da conversa.

E ele tinha razão…

A segunda história… Deus está em todos os lugares

A segunda história aconteceu em 2000. Eu me preparava para a última prova que faria na faculdade (até eu então eu não sabia que seria a última, mas enfim…). Eu estava a caminho da casa de uma amiga em São Paulo para estudar. Fui de metrô, pois era o melhor meio para chegar até lá.

Eu estava na linha verde do metrô e em determinado ponto do caminho fui abordado por um gentil senhor que me perguntou o caminho para um determinado ponto da cidade.

Eu informei aquilo que sabia e o senhor agradeceu. Em seguida, me perguntou:

“O senhor é médico?”

Quero deixar claro que eu carregava em minha mochila alguns livros de medicina. Mas DENTRO da mochila. Não tinha nada que me denunciasse na condição de estudante ou médico ou qualquer coisa parecida.

Ele pareceu desapontado diante da minha negativa…

“O senhor não é médico? Pois deveria ser… acho que o senhor seria um bom médico. É só se dedicar um pouco mais…”

Eu confesso que estava sentindo um misto de confusão, estranheza, medo talvez… e naquele momento parecia que tudo tinha sumido ao nosso redor. Era como se somente eu e ele estivéssemos sozinhos no vagão do metrô.

Ele deve ter percebido minha confusão, pois logo em seguida emendou…

“Engraçado não é? Deus encontra alguns modos curiosos de conversar com a gente, não é mesmo?”

De repente, tudo voltou como antes… chegávamos a estação Sumaré do metrô e aquele gentil senhor me estendeu a mão e com um sorriso se despediu de mim:

“Ricardo… foi um grande prazer conversar com você. Desejo tudo de bom em sua vida.”

As portas se abriram e aquele gentil senhor que de algum modo sabia meu nome e qual era meu maior sonho desapareceu no movimento da estação. Saí da estação, sentei em um banco e chorei…

A terceira história… um fio de esperança.

A terceira história aconteceu em 2007. Naquela época muita coisa já tinha saído errado. A faculdade de medicina tinha ficado para trás e eu já trabalhava como professor de informática. Lembro que a convite do dono da escola em que eu trabalhava, participei de uma reunião espíríta em um lugar chamada “Comunidade do ancião” (bom… não era esse nome, mas eu lembro que era uma casa espírita kardecista e que a entidade que ali era recebida por um sargento aposentado da polícia militar que era carinhosamente chamado de “velho”)

A celebração consistia em uma palestra proferida pela entidade que após seu discurso, atendia ao público que lhe fazia perguntas. A palestra em si demorou pouco mais de 30 minutos. Após isso, muitos permaneceram em pé. Eu inclusive.

Cada um fazia uma pergunta sempre questionando algum problema ou buscando alguma orientação espiritual. Lembro que uma senhora perguntou como poderia alcamar um filho extremamente violento e um senhor que perguntou como poderia se comportar diante da grave enfermidade de sua mãe…

Foram várias perguntas… e eu ali em pé aguardando minha vez.

Alguns perguntavam coisas mais práticas, sobre como prosperar nos negócios ou se deveriam ou não investir dinheiro em alguma coisa.

O “Velho” respondia a todos. Nem sempre as respostas eram aquelas esperadas. As vezes ele dava um puxão de orelha, as vezes ele dava uma resposta evasiva e por duas vezes sua resposta foi “não posso responder a isso”.

Finalmente chegou minha vez. O “Velho” olhou para mim e disse:

“Ah… é o nosso irmão que tem dúvidas sobre o que deseja ser na vida… Vamos lá… faça sua pergunta rapaz…”

Acho engraçado que nestas histórias eu sempre passo carão…

Enfim, formulei minha pergunta: “Bom, eu há muito anos perdi algo muito importante para mim. Eu basicamente tive a oportunidade de fazer uma faculdade de medicina e depois de alguns anos eu a abandonei por circunstâncias que fugiram ao meu controle. A questão é que até hoje isso me persegue. Minha pergunta é simples: devo aceitar que perdi minha chance ou ainda posso pensar em lutar por isso?”

O velho fechou os olhos e colocou-se numa posição introspectiva (ele fez isso com os outros também). Em seguida voltou a olhar para mim e falou:

“Você deveria saber que é você quem deve estabelecer seu caminho. Você pode vir a ser um bom médico. E não só um médico que cura o corpo, mas também um médico que cuida da alma das pessoas. A questão é que para isso, você deve deixar o que lhe aflige de lado e trabalhar para que isso se concretize. Lembre-se que para ser médico, não basta apenas estar em uma faculdade, não basta apenas querer. Você precisa trabalhar para isto acontecer. Tenho certeza de que você será um bom médico.”

E ele passou a palavra para o próximo… eu me sentei. Com mais dúvidas do que respostas…

A quarta história… verdades são duras

Aconteceu no ano de 2008. Nesta época eu trabalhava em uma empresa de programação de sistemas e era um analista de suporte técnico. Trabalhava muito, ganhava pouco e ali eu definitivamente me sentia um estranho no ninho.

Na época, meu pai tinha um conhecido endinheirado que resolveu me pagar um curso de liderança motivacional. Não deixa de ser um curso de auto-ajuda. A ideia é simples: você vai para um retiro de um final de semana em um hotel e ali você fará um curso de liderança motivacional.

Para quem não conhece, o curso é cheio de segredos e mistérios, mas na verdade, eles trabalham com emoções. Então o que fazem é levar você ao medo, para depois atingir a raiva, depois enfrentar a tristeza, para finalmente encontrar a alegria.

Auto-ajuda…

Bom… lá fui eu para o tal treinamento. Preciso dizer que o negócio é impactante. Eles pegam pesado no psicológico. Mas o fato é que naquele momento, a psicologia de impacto funciona.

Um dos facilitadores era médico e ele veio a ser o meu mentor durante a imersão.

E em uma das etapas do curso… a raiva. Ele me provocou com algumas questões pertubadoras:

“Como você espera conseguir cuidar de pessoas se você não cuida de você mesmo?”

“Você acha que cuidar da vida de alguém é algo simples? Você primeiro precisa aprender a ser responsável!”

“Ser médico para você é apenas entrar em uma faculdade? Você precisa merecer estar em uma faculdade!”

Bom… juntando a tudo aquilo que eu já havia passado no curso, foi o que bastou. Ele despertou a raiva… e eu aos berros e coberto de lágrimas arrebentei duas cadeiras de madeira tentando acertá-lo.

Em tempo… não fui o único que arrebentou cadeiras por ali. Acho que elas estavam ali pra isso. E nem eu nem ninguém acertou nenhuma cadeira em nenhum facilitador naquele dia.

Depois disso, me deitaram no chão e colocaram uma coberta e devo ter adormecido por algum tempo. Minutos, horas… não sei. Quando acordei, ele estava ao meu lado, sorrindo.

“Você acha que está pronto para deixar para trás tudo aquilo que deixa você tão confuso? Comece a pensar que você se tiver responsabilidade e souber cuidar de você, você terá méritos para ser um bom médico… e não só um médico do corpo… mas um médico da alma”

Após muito tempo que fiz o curso eu descobri duas coisas a respeito daquele facilitador: a primeira é que ele era espírita e a segunda é que foi ele quem pediu para ser meu mentor durante o treinamento.

O resumo…

Quem estiver lendo isto não é obrigado a acreditar em todas estas histórias. Por muito tempo eu também não quis acreditar…

Não sei nem mesmo se elas estão relacionadas. Mas hoje, não sei por qual motivo, todas insistiam em vir a minha memória. Então resolvi contá-las…

Mas é um fato que não precisa ser nenhum gênio para concluir que ninguém chega a lugar nenhum se não tem ideia para onde está indo.

Acho que hoje acordei assim… me sentindo desorientado. Da mesma forma que me sentia quando vivi estas histórias.

E hoje… nada aconteceu…

5 de outubro de 2015

365 dias…

Foi em uma manhã de domingo… Acordei com uma frase de efeito:

“Acho que fiz xixi na cama…”

Não era xixi, mas sim o primeiro sinal de rompimento da bolsa. Não havia dor, nem cólicas ou contrações. Ainda não era a hora. Mas eu já sabia que a partir daquele dia muita coisa mudaria.

Em um primeiro momento, tranquilizei minha esposa. “Esta tudo bem… descanse mais um pouco”. E ela precisaria mesmo descansar porque mais tarde, se realmente a bolsa rompesse, teria muitos motivos para estar descansada.

Voltamos a dormir e somente tomamos café da manhã por volta de 10h30. Naquele 5 de Outubro de 2014 ocorria no Brasil eleições gerais e – sentados à mesa do café – planejavámos como faríamos durante o dia.

Combinamos como faríamos para votar e em seguida iríamos ao hospital. Como não havia nenhum outro sinal clínico, seria mais para um desencargo de consciência. Eis que então, ao levantar-se da cadeira, novo fluxo. Desta vez bem mais volumoso.

Agora não restava dúvidas… a bolsa rompera. Mariana estava a caminho.

Os planos então mudaram. A escolha do próximo presidente da república, governador, deputados e senador ficaria à cargo dos outros eleitores. Nós tínhamos a partir daquele momento outras escolhas mais urgentes.

Fizemos todos os preparativos. Bolsa, documentos, carro, avisar alguns familiares… Enfim… Coisas que você só descobre como fazer no momento em que precisa realmente fazer.

No caminho para o hospital, uma parada estratégica na casa da minha mãe. Acalmá-la foi uma das coisas que tive que fazer. Depois fomos diretamente para o hospital. Após os primeiros exames, a constatação de que minha esposa entrou em trabalho de parto e que a partir daquele momento seria uma questão de tempo.

Fizemos contato com a obstetra. Em suas contas provavelmente o parto seria somente no final da noite. Havia tempo.

Fui tratar da internação e da parte burocrática… a parte chata da história. Já era por volta de 14h30. Quando voltei ao Centro Obstétrico encontrei Ana Paula já com algumas dores. Finalmente ela descobriu na prática o que é uma contração.

Engraçado que eu me lembro de cada momento daquele dia. Foram contrações, banhos mornos… Ana Paula naturalmente feliz, mas também com dores. Muitas dores.

O tempo foi passando e a dilatação aumentando. Quando próximo de 18h00 a dilatação já estava total e os médicos de plantão decidiram por realizar o parto. A obstetra calculou mal o tempo – ou então Mariana resolveu chegar logo – e lá fomos para a sala de parto.

Nos tempos da faculdade de medicina eu tive oportunidade de assistir alguns partos. Partos normais, cesarianas e tudo parecia tão linear, tão processual… é bem diferente quando é com a esposa e com o filho (no caso, filha) da gente.

E então, o primeiro sinal da minha baixinha. Um cabelinho rebelde apareceu e depois a cabeça, um braço, o outro, o corpo, as pernas e por fim, o cordão… Alguns instantes para avaliação e pude então ouvir minha filha chorar.

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O relógio da sala marcava 18h02…

E isso foi há 365 dias atrás… 1 ano. Hoje, minha filha Mariana completa seu primeiro ano de vida. Como todo pai de primeira viagem, tive que aprender algumas coisas na marra. Fraldas, banhos, papinhas, mamadeiras… InstagramCapture_fed42d72-7f3d-4567-8997-04417f89f36e

Neste um ano pude ver minha filha em vários momentos… E aprendi muito com ela.

Devo ter trocado a fralda dela uma centena de vezes (Ana Paula com certeza trocou muito mais…). Pude dar banho nela. Eu a coloquei para dormir. Pude ver seu sorriso ao acordar, pude dar conforto e segurança quando ela chorou.

Pude acompanhar a primeira papinha. Fiquei preocupado com a primeira febre. Fui ao desespero com o primeiro dodói. Pedi a Deus que causasse em mim – e não nela – a dor da primeira injeção. Escovei seus cabelos. Segurei suas mãos.

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Ouvi sua primeira “palavra”… Não era bem uma palavra. Afinal, nunca vi “Agú” em nenhum dicionário. Hoje ela já sabe o que significa beijoca. E quando digo: “Filha, manda uma beijoca pro pai?” recebo um beijão estalado…

InstagramCapture_2905fedd-9534-453d-afdc-ca6721677a7eEu a vi sentar, engatinhar, levantar com algum apoio. Eu a vi no andador… Dancei com ela. Aprendi a amar uma música que nunca significou nada para mim (e que hoje pra mim é a música mais linda do mundo).

Vi seus primeiros dentinhos também… e antes dos dentinhos eu amei seu sorrisão sem dentinhos, naquela que pra mim é a foto mais linda do mundo.

Aprendi as músicas da galinha pintadinha. Todas elas… Aprendi que ela não gosta de Simpsons e descobri que ela adora ver abertura de novelas. E foi com uma abertura de novela que uma música se tornou especial…

Que mundo maravilhoso…

Ela também me ensinou o que é amar incondicionalmente…

Este primeiro ano foi sobretudo um ano de aprendizado… um ano de descobertas… de muitas perguntas… o primeiro ano da vida de minha filha.

E valeu muito a pena…

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Feliz aniversário, Mariana.

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