30 de dezembro de 2018

2018 está terminando… Feliz Ano Novo!!! (Um Papo Qualquer #32)

vitrine_032

[Sobre o episódio]

Disseram que não sairia… mas saiu!!!

As festas de fim de ano são uma tradição em vários países.

Bem é verdade que alguns países tem o seu próprio calendário... na China, por exemplo, o ano novo só dará as caras no dia equivalente à 09 de fevereiro de 2019, em nosso calendário. Segundo o calendário judaico – que aliás, não me atreverei a pronunciar o nome aqui porque achei difícil pacas – o ano novo só virá em 30 de setembro de 2019. E segundo ainda um outro calendário, o persa, o ano novo só virá em 20 de março.

O fato é que – pelo menos no calendário oficial brasileiro estamos chegando ao final do ano... e com isto é a hora de olhar pra trás, comemorar o que aconteceu de bom, aprender com o que aconteceu de ruim e seguir em frente, pois o ano novo está chegando e 2019 promete ser bem legal aqui na vida do UBQ...

Para este último episódio do ano, convido você a participar de nossa retrospectiva e também de nossas perspectivas.

Venha, a mesa já está pronta... esperando por você...

[ Agradecimentos ] (Espero não ter esquecido ninguém!!!)

  • Entrevistados: Júnior Ferreira, Michel Vieira, Jean Bros, Paulo Gustavo Pereira, Thiago Uberreich, Maurício Virgulino Silva, Julian Catino, Vinícius Candreva, Rodrigo Bamondes
  • Parceiros: Shi, Felipe Canela, Sebastian Bondziul, Fabio Carvalho (Fabioca), Ricardo Bunnyman,
  • Redação UBQ: Luiz Filipe Pereira, Júnior Ferreira, PH Vizza, Michel Vieira, Thiago Lepre
  • Podcasts: 80Watts, Auto Radio, RecreCast, DoubleCast, Papo Canela, Apenas 1 Cast, Diário da Revolução, Por Outro Lado Podcast, PlayCast, ConfianTI Podcast, Los Chicos, Fla Cast, Rádio Pião Podcast, Blind Cast, Papo de Calçada Podcast, Boleiragem, Tem Que Ter Cast, Cast Invisível, Livre Podcast, CTRLClickBR Podcast
  • Outros amigos: Mariella Cinquetti, Carlos Aros, Ouvindo Podcast, Podiola, Mister Play, Grupo Gabiroba, Grupo PodMedia, Dra. Simone Matias
  • Você… ouvinte deste podcast
  • Minha esposa Ana Paula

[Ficha Técnica]

[Nome do episódio] “2018 está terminando… Feliz Ano Novo!!!”
[Publicação Original] 30/12/2018 - [Duração] [38'25"]
[Formato] MPEG-1/2 Audio Layer 3 (mp3@160kbps)
[Músicas] - “Funky Suspense” by BenSound; “Ocean” by Ehrling; “Prelude” by The Fat Rat; “Forward” by Declan DP; “Fresh” by Ikson; “Night Out” by LiQWID; “Road Trip” by Ehrling; “Chatting” by Free Stock Music

26 de dezembro de 2018

Os melhores de 2018 – Disco da Semana #50

Buenas!

Passou-se o natal e a vida me prega uma peça de presente, um pé engessado. Que maravilha, não?! Ao invés de comemorar junto ao personagem gorducho de vermelho, eu comemorei ao melhor estilo do nosso personagem de vermelho, o Saci.

20181227_discodasemana

Infortúnios à parte, 2018 foi um ano pra lá de bacanudo quando o assunto é música (em outros aspectos, foi a segunda temporada de 2017, e piorada). Tanta coisa bacana foi resenhada por essa coluna nesse ano, e como não poderia deixar de ser,  esse escriba que voz fala (ou escreve, como queiram), também preparou a sua surpresinha para o fim de ano: uma belíssima lista de melhores do ano, ao melhor estilo Troféu Imprensa.

Só que como aqui não é a casa da mãe Joana, há de estabelecermos critérios para entrar nessa lista, e este será o ano de lançamento (obrigatoriamente 2018). O outro critério é muito mais subjetivo, e se trata da minha opinião pessoal.

Concordam? Discordam? Sem problemas, ainda vivemos em uma democracia. Se quiserem contestar e mandarem as vossas listas de melhores do ano via comentário ou redes sociais, ficaremos pra lá de felizes. Sim!!! Queremos fomentar o diálogo e o intercâmbio de música boa, e é pra isso que essa lista serve, pra disseminar o que ouvi de melhor no ano que finda.

E sem mais delongas, vamos a lista…

[ 5º Lugar – Scatolove – “Lei de Muffin” ]

20181227_discodasemana001

Fofo, mas sem perder a acidez e sem abrir mão de temas densos (mesmo que sejam ditos com leveza), falam sobre cotidiano e relações humanas de maneira tão autoral que parece que cada uma das canções são passagens reais da vida da banda, sem abrir mão de criticar a sociedade contemporânea (e todas as suas doenças: do corpo, alma e cabeça).  Pra refletir sem abrir mão da diversão.

Um disco pra cantar junto, em alto e bom som (em casa ou ao vivo num show da banda) que mostra que o Scatolove veio pra ficar, e não ser apenas o projeto paralelo de dois músicos profícuos em busca de diversão.

Uma das melhores e mais sinceras análises do mundo atual, feito com ironia, acidez, guitarras e um senso pop pra ninguém botar defeito.

[ 4º Lugar: Baco Exu do Blues - "Bluesman" ]

20181227_discodasemana002

Seu caldeirão de referências e suas letras, diretas como um soco no nariz, já começaram a chamar a atenção fora da bolha do rap nacional (seu disco de estreia já ganhou crítica de "disco do ano" em um prêmio bem conhecido em 2017), chegando até a ganhar curtida da própria Beyoncè (a quem homenageia na faixa "Me desculpe Jay-Z").

Mas não é só sobre empoderamento o álbum, ele também fala de sexo, poder, religião, sociedade e amor, mas de uma maneira não ortodoxa (mas fala do amor do jeito normal também, não se preocupem), usa o sentimento como metáfora para algumas situações de depressão.

Um dos caras que faz rap de maneira mais cheia de brasilidade da atual cena e que fala de amor e crítica social com a mesma intensidade. Coisa fina.

[ 3º Lugar: Superchunk - "What a time to be alive" ]

20181227_discodasemana003

O Superchunk tem em sua sonoridade a sua principal marca registrada. Eles são aqueles raros tipos de bandas que podem gravar o mesmo disco por anos e anos a fio, e que sempre soarão parecidos e diferentes ao mesmo tempo. Estilo baby, estilo.

Conseguem sempre manter aquele espírito "síndrome de Peter Pan" nos seus ouvintes, pois seu som nunca envelhece nem soa datado, mesmo sendo a cara do que melhor se fez nos anos 90. A cada lançamento nos dá uma aula de como uma banda deve soar, de estilo, de produção, de distribuição (eles tem seu próprio selo, há anos), e da manutenção do mais crucial espírito "punkrock": o "Faça Você Mesmo".

[ Vice-Campeão: Projeto Rivera - "Eu Vejo Você" ]

20181227_discodasemana004

Surpreendentemente brasileiro! É assim que consigo definir o segundo álbum da banda. Faz uso de referencias regionais mas ainda assim soa absurdamente cosmopolita e moderno. O álbum traz influências de MPB, de baião e do rock alternativo cheio de guitarras e com uma cozinha pra lá de pesada fazendo uso de baixo, bateria e percussão.

As letras são extremamente bem feitas e são de uma sinceridade absurda, a banda não tem pudores em se posicionar no mundo e expor seu ponto de vista includente, coisa corajosa nos intolerantes tempos de hoje.

Caso queira um pouco de amor e luz na sua vida, pode cair de cabeça nesse discaço do Projeto Rivera. Nos dias de hoje, mais do que importante, essencial.

[ O Grande Campeão: Carne Doce - "Tônus" ]

20181227_discodasemana005

Que álbum! O povo da Carne Doce deu um passo rumo ao desconhecido nesse novo disco, e acertaram em cheio. Um disco diferente de todos os outros lançamentos anteriores da banda. Sem espaço para os regionalismos do primeiro álbum, aqui a banda se reinventa, troca sua pele, coisa de quem já tá pronto pra seguir adiante, mas sem esquecer os êxitos de outrora.

Fazendo um som muito mais intimista e introspectivo, porém muito mais denso e profundo, com letras cirúrgicas. Falam sobre sua visão de mundo, amores, desamores, desilusões e sexo (sim, ele mesmo, por que não?) de uma maneira pra lá de direta.

Soa simples e complexo, discreto e explícito, um álbum pra se apreciar com calma e inúmeras vezes. A cada audição um novo detalhe, uma nova nuance, uma nova compreensão. Trocando em miúdos (e desculpem-me pela linguagem chula): UM DISCÃO DA PORRA!!! Pra lá de obrigatório, essencial!!! Explicitamente inesquecível, o melhor álbum do ano, fácil.

Feliz virada de ano pra vocês!

Que em 2019 possamos ter álbuns tão bacanas quanto esses melhores de 2018 (e se não tivermos, revisitamos grandes discos de outros anos, sem problemas).

Esse colunista vai se dar ao luxo de uns dias de férias e retorna aos trabalhos na segunda metade de janeiro/2019. Até lá.

Logo menos tem mais.

24 de dezembro de 2018

Marianas…

Nas andanças pelas ruas de São Paulo, o motorista de aplicativo sempre fica à espera de um novo chamado. E sempre são apenas duas informações básicas… a primeira: onde a pessoa está. A segunda: o nome da pessoa que chamou.

20181224_cronicasaovolante

Ao ver o nome ali da pessoa na tela, não são muitas informações… Pedro, Tiago, Paula, Joana, Eulália, Adonias, Gaetano… todos nomes possíveis. E cada um conta uma história.

Mas um nome que me chama a atenção quando surge na tela é o nome Mariana… E isto talvez porque eu tenha um forte ligação emocional com esse nome, não é mesmo?

Noite de Natal… não é exatamente o melhor dia para ficar longe da família, mas ao mesmo tempo é um dia muito bom para uma renda extra. Muitas pessoas estão indo e vindo e é claro precisam de alguém que as leve…

Chega um chamado da Vila Carrão… um bairro que surgiu em 1917 e que ganhou esse nome em homenagem a João da Silva Carrão, que foi presidente da província de São Paulo e também ficou conhecido como Conselheiro Carrão. Aliás, ali no bairro, tem uma grande avenida com o seu nome também.

20181224_cronicasaovolante02

Outro detalhe me chamou a atenção… o nome da passageira é Mariana.

Não era a primeira vez… outras Marianas já embarcaram no meu carro. Uma moça de Minas Gerais que estava a trabalho aqui na cidade, uma garota muito alcoolizada que estava saindo de uma festa, uma moça que tinha uma amiga com cabelo cor-de-rosa, uma outra que sequer falou três palavras comigo… em todas elas eu buscava traços de bom caráter e qualidades que talvez eu possa ver na Mariana que mais me interessa… a minha filha.

Mas o que me chamou a atenção ali, é que uma Mariana estaria ali em minha solitária noite de Natal.

Ao chegar no local de embarque, uma moça que contava com no máximo uns 21 anos me aguardava. Ela carregava consigo algumas malas de viagem, uma bolsa a tiracolo e um garrafa PET com água.

Ela logo quis embarcar e eu sugeri que colocássemos a bagagem no porta-malas. Ela prontamente aceitou. Ao entrar no carro, logo perguntei suas preferências pelo ar ou ventilador e se tinha alguma estação de rádio preferida.

- Apenas uma rádio que seja musical, por favor.

Percebi que a moça não queria conversa. Deixei-a absorta em seus pensamentos e me concentrei na viagem. O destino era próximo à Av. Paulista.

Os primeiros dez minutos da viagem foram em completo silêncio. Apenas o rádio insistia em fazer algum ruído musical. Então percebi um leve soluçar. Mariana estava chorando…

Não sei se existe uma regra específica sobre isso, mas acredito que não é uma boa ideia se intrometer nos problemas alheios. Então, tudo que pude fazer naquele momento era apenas silenciosamente esperar pelo final da viagem.

Alguns momentos depois, percebo que ela começou a conversar com alguém ao telefone. Inicialmente em voz baixa, depois, em som natural… com a voz muito embargada, entremeada por choro.

Era uma conversa triste… ao que parece seu Natal fora arruinado por alguma briga familiar. Discutira com os tios… com o irmão… com o próprio pai. E ela estava arrasada com tudo aquilo. Por fim, tomou a decisão de ficar sozinha no Natal e por isso estava retornando para sua casa no centro da cidade.

Eu não pude deixar de notar a conversa… e dali, duas frases retumbavam em minha cabeça: ‘Eu só queria ter uma noite de Natal feliz…’ e ‘Tudo que eu queria era poder ouvir uma palavra de carinho do meu pai…’

Aquilo doeu… me coloquei no lugar do pai daquela Mariana… imaginei como seria aquilo se a história fosse com a minha Mariana. Eu não estava pronto para aquilo. Eu só queria que aquela Mariana pudesse ter a chance de ter uma noite de Natal feliz.

O seu destino se aproximava e ela então desligou o telefone. Ela então se dirigiu a mim para explicar o ponto de desembarque. Mas não conseguiu falar sem soluçar as palavras…

Aquilo era demais pra mim…

- Dona Mariana, a senhora me desculpe a intromissão. Eu sei que dirigindo aqui muitas vezes nós devemos agir como surdos e mudos e não se intrometer na vida das pessoas. Mas eu não pude deixar de ouvir parte de sua conversa.

Ela ouvia atenta. Eu prossegui…

- Sei que as vezes não é fácil… sei que as vezes a vida não sai como a gente planeja. Eu sei isso por experiência própria. Sabe, eu tenho uma filha pequena que também se chama Mariana. E por um momento eu imaginei o que – como pai – poderia dizer a ela caso ela estivesse passando por um momento difícil como o seu.

Talvez eu estivesse indo longe demais… mas já havia começado, não poderia parar agora.

- Eu diria a ela… o bom de dias ruins é que eles também chegam ao fim. E amanhã – um outro dia – podemos recomeçar e tentar fazer tudo certo novamente. Temos dias bons… mas os dias ruins também vêm junto no pacote. Sei que talvez isso não tenha importância nenhuma. Mas eu queria desejar do fundo do meu coração para a senhora um Feliz Natal. Este pode não ter sido o melhor. Mas torço muito para que os próximos sejam mais alegres e felizes.  Confie nisso.

- Tudo vai ficar bem… acredite.

Ela chorava copiosamente. Naquele momento não haveria nada que eu pudesse fazer a não ser torcer para que eu não tivesse piorado as coisas.

Finalmente chegamos ao destino. Desembarquei e a ajudei com as malas. Estendi minha mão e desejei a ela um Feliz Natal.

E então, a moça me abraçou…

- Obrigada! O senhor não imagina o quanto isso significou para mim.

Eu me despedi dela e embarquei para seguir o meu destino. Mas no instante seguinte ela deu um tapinha no vidro do passageiro…

- O nome do senhor é Ricardo, não é?

- Isso mesmo.

- Achei que o senhor deveria saber… o nome do meu pai também é Ricardo. Obrigada por permitir ser parte de sua família pelo menos por alguns minutinhos. Tenha um Feliz Natal o senhor também!

E finalmente, ainda que num rosto coberto por lágrimas, um leve sorriso surgiu ali.

Eu acenei com a cabeça e agradeci… saí lentamente enquanto ela seguia seu caminho. Afinal, agora era minha vez de chorar… e naquela noite de Natal, senti-me novamente de certa forma abençoado por trazer alguma alegria para aquela Mariana.

E mais uma vez, um chamado… uma nova viagem começaria naquela noite de Natal…


O presente de Natal

Tecnicamente já era dia 25, pois se aproximavam as cinco horas da madrugada. Mas o clima era de 24 ainda, já que nem todos - nem eu - haviam conseguido comer a ceia coletiva da qual todos participaram. E pelo andar do plantão ia ficar para o Natal do ano que vem.

20181224_spasmo

Eu terminava uma internação quando a Enfermeira acorre à porta do consultório:

- Abri um protocolo de dor torácica, não teve jeito. Paciente de 67 anos com dor típica. Vou correr o eletro. Mas será que o senhor já quer ir falando com ele?

O tom da pergunta era quase de desculpas, pois ela sabia que não paramos. Foi o que quis lembrá-la:

- Pode, claro, mas olha... fique em paz, a gente veio para isso. Tá pesado para você também.

Ela abriu um sorriso franco e logo depois trouxe pelo braço um senhor. Nós já sabíamos a idade dele.

- Seu Lúcio ?

Era o que dizia a ficha… Lúcio Alves. Então, comentei…

- Nome de cantor… Lúcio Alves!

- Este 'Alves' é por causa do cantor mesmo. Meu pai era seresteiro e grande fã dele.

- O meu também! E eu sei até umas músicas!

- Eu sei por ouvir quando pequeno e por trabalhar com isso. Eu canto na noite.

- Puxa vida, então eu tenho um artista em minha frente!

- Um artista que está tendo um troço! -  E fez uma careta comprimindo com o punho fechado a região do meio do peito.

- A enfermeira está nos esperando para o eletro, vamos lá?

  Levantamos rapidamente e ela já aprontava a maca. Fez com que ele desabotoasse a camisa, se deitasse e foi colando os adesivos no peito. Então perguntei:

- Quem veio com o senhor?

- Ninguém não. Esperei todo mundo dormir e vim. A ceia foi diferente esse ano…

Achei por bem interromper ali pois podia interferir no resultado do exame. Pousei a mão no ombro dele como que anunciando que ficaríamos em silêncio. Fui vendo o traçado… nada preocupante.

Ela terminou o exame e me deu a folha, e fui para a sala enquanto ele se recompunha. O eletrocardiograma estava absolutamente normal. Logo depois ele adentrou à sala. Pedi para auscultar seu coração. Tudo bem. Sentei-me e finalmente disse:

- Seu Lúcio, não tem nada no coração! Nós vamos ter que entender o que é essa dor. Mas por enquanto eu o convidaria a ficar um pouco mais tranquilo. Sua pressão também está normal.

Ele me olhou intrigado, por vários segundos antes de dizer:

- Mas dói. Dói muito… queima, sabe?

Perguntei se tinha gastrite, se fumava, se bebia - bebia nunca, nem quando cantava de noite - se tomava remédio, "um para a pressão, que faz fazer xixi". Aí a pergunta-chave:

- Passou nervoso na ceia? O senhor disse que foi diferente.

- Eu tenho uma filha de 15 anos. Fui pai tarde, é minha filha única. E ela comunicou na ceia que estava grávida.

E abaixou a cabeça numa expressão de dor.

Na mesma hora lembrei do verso de uma canção que dizia "tanto engorda quanto mata, feito desgosto de filha". Em minha frente eu tinha alguém que havia acabado de receber um petardo no peito no sentido figurado, mas que doía como se fosse real. Há que se ter cuidado para dizer que não se trata de algo letal e não parecer que se está desfazendo daquela dor.

Por alguma razão ele havia sido pai depois dos 50, e aí várias ilações me pululavam na mente. Mas para domá-las e principalmente para seguir com a consulta, continuei:

- Ela namora faz tempo?

- Anunciou tudo junto… Que está namorando e que engravidou.

- O pai da criança tem que idade?

- Moleque também, da idade dela. São colegas do curso de Crisma.

Ouvindo isso, fiz uma careta da qual teria me arrependido se ele não tivesse sorrido de olhos fechados e fazendo um sinal de concordância com a cabeça… O que estaria se passando pelos pensamentos daquele senhor? Um pai bissexto, que certamente colocara seu maior tesouro numa redoma - ou pelo menos tentara, inclusive com uma educação religiosa formal e bem dirigida pelo que dera para notar. Tentei contornar, meio sem saber como…

- Bom... o senhor ainda trabalha.

Ele olhava o chão e já respirava melhor.

- É, eu ainda trabalho. Eu tenho um estudiozinho, alugo para gravações, produzo outras. Cantar na noite mesmo é uma vez, duas por mês. Só para não perder o costume, eu gosto.

Ele foi se ajeitando na cadeira, assumindo uma postura mais ereta. No afã de atenuar a situação, acabei por fazer uma pergunta, que mais soou como uma afirmação desastrada:

- O senhor demorou a ter essa filha!

Ele me olhou sério… cheguei a gelar por dentro.

- Eu viajava muito. Cantava em dupla com minha esposa na época, não dava para pensar em filho. Aí tivemos um acidente de carro e ela faleceu. Fiquei um tempo batendo cabeça até que resolvi ficar mais quieto e montei o estúdio. Depois conheci minha atual esposa e a gente quis ter filho e aí veio minha menininha. Ela tem o nome da minha parceira que faleceu.

Soltei um suspiro e ficamos ambos cabisbaixos. Ele perdera a primeira esposa com quem inclusive dividia a arte e agora perdera a sua menininha, tornada mulher por força das circunstâncias.

Ele então ergueu os olhos para mim:

- Então o senhor me garante que não há nada no coração?

Achei por bem ser enfático…

- Garanto!

Ele manteve o olhar fixo em mim e marejou os olhos.

- Que bom!

Sorri também e ele continuou…

- Eu fui pai com 52. Por opção mesmo… Daí nunca tive pensamento de ser avô. As pessoas estão tendo filhos depois dos trinta, sei lá. Achei que ela fosse ser mãe daqui a uns vinte anos. Aí eu ia estar gagá ou morto mesmo.

Rimos juntos...

- Depois da ceia, que foi horrível, claro que foi, eu já fiquei com essa dorzinha. Vi todo mundo dormir, e o negócio não passava. Aí bateu o medo, o senhor sabe como é, né?

- Sei sim, deve ser horrível, é como ver a morte chegar.

  Ele me fitou meio surpreso e boquiaberto por uns segundos, e arrematou:

- É que não era só morrer não Doutor. Pensei que eu não veria meu neto. Uma coisa que eu nem contava, e de repente aparece e eu que ainda tô inteiro disparei a pensar no que eu podia fazer com ele e foi quando eu vi o violão que foi do meu pai, que tá pendurado na parede.

- O senhor não toca o violão do seu pai?

- Nunca toquei, por respeito. Minha filha não toca nem campainha, ela não gosta disso. Aí eu pensei… quem sabe eu não tiro esse violão daí e dou pro bezerrinho que tá vindo aí para ele aprender a tocar?

Eu lhe sorri.

- Quem sabe vocês não façam uma dupla? Ou pelo menos cantem juntos!

- Cantaremos, Doutor! Cantaremos! Eu posso ir?

- Mas já passou a dor? Talvez eu precise fazer uns exames, mais por conta do protocolo.

Ele ficou me olhando um tempinho, como a me explicar com os olhos que nunca fora homem de seguir protocolos. Eu entendi. Estendi o eletro e o ofereci:

- Olha, seu Lucio, não é nosso costume, mas o senhor aceita esse eletro de presente? Para provar que o senhor  tem um coração bom!

Ele riu e falou se levantando…

- Não precisa, Doutor, eu te agradeço muito... Meu presente, Deus já me deu hoje!

19 de dezembro de 2018

Luiza Lian – “Azul Moderno" (Disco da Semana #49)

Buenas,

Depois de um fim de semana de descanso merecido salgando os pés no mar, vamos falar de um disco que fala bastante desse elemento, mas de maneira muito mais "litúrgica".

20181219_discodasemana

Cada vez que me jogo de cabeça na "nova música brasileira" sou surpreendido por artistas cada vez mais inspirados e em busca de sair da zona de conforto. Cada disco ouvido é um sorriso diferente, e esse me colocou um sorriso do tamanho do mundo no rosto.

No caso da Luiza Lian, mesmo levando em conta sua base quase que exclusivamente eletrônica, suas influências são pra lá de brasileiras, vai de bossa nova a Jorge Ben em um pulo, e não se faz de rogada em assumir sua brasilidade.

Essa brasilidade também é um tópico à parte, a paulistana usa e abusa de sua religiosidade afro-brasileira, nas suas letras e na sua musicalidade. Tambores, batidas e temáticas fazem do disco algo brasileiríssimo, mesmo que eletronicamente, raiz até o tutano. Além da religiosidade e de todas as suas cantigas usadas no disco, usa as lendas oriundas dos nossos ancestrais africanos, como a Iara, a Pomba Gira, entre outros.

20181219_discodasemana01

Dona de uma voz doce, Luiza se junta ao produtor Charles Tixier (que tocou bateria, MPC, baixo synth e teclados) e de vários convidados de renome como Tim Bernardes (que tocou violão, baixo e fez arranjo de vozes e sopros), para gravar esse seu terceiro disco, junto a um time de músicos pra lá de tarimbados Gabriel Basile, Filipe Nader, Guilherme D’Almeida, Gabriel Milliet e Tomás de Souza.

Ainda em 2017, esse timaço se isola no sítio do produtor Gui Jesus de Toledo para começar a gravação desse disco. Depois de praticamente pronto (e ainda inédito), Luiza e os produtores, desconstroem toda a gravação remixando-a. Esse remix é o "Azul Moderno" que viu a luz do dia e do qual estamos falando.

20181219_discodasemana02

Um disco que mistura o sagrado e o mundano na mesma proporção para criar algo único e divinamente belo (trocadilho à parte), um dos discos mais contemporaneamente brasileiros que ouvi nos últimos tempos.

Já virou discoteca básica...

Essencial para entender a nova música brasileira. Pode se jogar de cabeça porque a viagem é pra lá de garantida. Basta clicar aqui e retirar seu ticket pra viajar bonito.

Logo menos tem mais

18 de dezembro de 2018

Bastion – Bonito, Lindo, Meigo… e que Música!

Olá amiguinhos do UBQ, “beleuza”?

Hoje, estamos aqui reunidos para falar de um game que joguei no PC (e paguei baratinho… umas 6 pilas no steam) mas tem para uma porrada de plataforma só procurar que você acha. Estou falando de BASTION.

20181218_borajogar

Antes de mais nada, deixa eu adiantar que o jogo é bonito, é lindo, é meigo, é uma graça e isso só falando da parte gráfica do game eu nem cheguei nas músicas ainda.

Pronto… Dito isto vamos para a história do game.

[ Sobre o jogo ]

Bastion mostra um garoto (sim ele é apenas chamado de “Kid” pelo narrador”) que tem uma baita responsabilidade nas mãos, salvar os humanos. Só isso…

20181218_borajogar01

Basicamente houve uma grande calamidade no planeta (e o narrador que vai contando a história chama apenas de calamidade mesmo) e isso fez com que os seres humanos virassem estátuas e o mundo virasse um monte de cacos.

Aí, o “Kid” aparece no meio de uma espécie de fortaleza, chamada Bastion, e sai em busca de sobreviventes, pedaços do mundo, pedaços da fortaleza e tudo mais para “remontar” o planeta e salvar a todos.

20181218_borajogar02

Com o passar do game a fortaleza vai recebendo novas funcionalidades como loja de itens, loja de armas, etc, tudo para auxiliar o garoto em sua missão. O rapazinho também vai encontrando sobreviventes ao longo do game que vai trazendo para a fortaleza.

Bastion é a ultima esperança deste povo e “Kid” precisa completar suas funcionalidades, ativá-la e salvar todos. Para isso precisa encontrar os núcleos que estão espalhados pelas diversas fases do game…ou pedaços das fases já que tá tudo um caco só.

20181218_borajogar03

Musicalmente falando o game também é simplesmente du%#%$@!, eu achei a trilha sonora no Spotify e pirei em ouvir as músicas que não reparei 100% enquanto jogava…destaco aqui “Zia’s Song” é linda e eu escuto o tempo todo.

20181218_borajogar04
(NOTA DO EDITOR: você pode curtir a trilha sonora no Spotify clicando aqui!)

[ A jogabilidade ]

O jogo é bem linear, seguindo a história dando opções secundárias apenas para “fases” de aprimorar armas e tudo mais. A jogabilidade do game é tranquila para quem joga em um joystick porém pode ficar complicada quando usado o teclado e mouse.

O game mostra uma câmera tipo “Diablo” sabe, onde você vê o personagem por cima em uma diagonal que te permite enxergar o que está rolando (também conhecido como perspectiva isométrica).

20181218_borajogar05

Kid carrega duas armas por vez (só 11 no total e você as pegas ao longo do game) além de poder esquivar, usar escudo, usar poder especial e ter – é claro – que correr e se posicionar para enfrentar alguns inimigos (ou hordas).

Isso requer bastante sincronia de botões e por isso eu acho mais fácil jogar no joystick…mas ai é opinião minha mesmo. Sua experiência pode ser um pouco diferente.

[ Veredito ]

Vale muito a pena jogar! De tempos em tempos, o jogo está em promoção e custa bem baratinho mesmo! Sério… eu paguei somente R$6,00 nele. Além disso, você encontra em diversas plataformas de consoles a PC’s (não precisa de muito vídeo pra rodar \o/).

Baita joguinho legal, com som maneiro e gráficos lindos de ver (todo desenhadinho… bem fofo…).

Mais do que recomendado como uma opção de game que entrega boa história, bom game play e não demora uma eternidade para ser terminado.

20181218_borajogar06

Como curiosidade eu trago algo que funciona mais como um spoiler do que como uma curiosidade propriamente dita… o jogo tem duas possibilidades de final, então fique atento e veja os dois porque vale a pena.

Recomendadíssimo pra jogar e para curtir a trilha sonora… E deu até vontade de jogar de novo…

Bom é isso, vou ficando por aqui, até mais e um abraço!

17 de dezembro de 2018

Então é Natal (Crônicas Amarelinhas Especial de Natal)

Escrever para as crônicas Amarelinhas é algo que me dá prazer e estresse ao mesmo tempo. Prazer por conseguir colocar no papel (computador) angústias e aspirações minhas, que me causam reflexões. Estresse é por achar algo relevante para ser escrito, tendo um bom fundamento e deixando uma boa mensagem.

20181217_amarelinhas1

Por livre e espontânea pressão quero falar do Natal (NOTA DO EDITOR: bom… talvez só um pouquinho de pressão).

Mais que uma festa cristã, o natal envolve muitas pessoas e muitos significados. Seja comercial, seja espiritual, seja social ou filosófico. As pessoas transformam suas vidas, se tornam mais caridosas, carinhosas e sensíveis. São tempos de paz, de amor e de gastar dinheiro com presentes.

20181217_amarelinhas01

Por mim tudo aceitável.

Quando adolescente eu tinha uma missão de Natal. Acordava bem cedo, não para ganhar presentes, mas sim para distribuir balas para as crianças do meu bairro. Isso mesmo, usávamos toucas natalinas enquanto um dos membros do grupo de amigos do meu pai, se vestia de Papai Noel.

O objetivo era entregar balas e doces para as crianças da comunidade. Íamos em caminhões ou camionetes, onde riamos, contávamos piadas (eu escutava na maioria delas), passávamos calor (principalmente o Papai Noel) e distribuímos os pacotes com balas compradas por nós mesmos. Existia uma regra, nunca jogue as balas, entregue nas mãos das crianças.

20181217_amarelinhas02

O tempo foi passando, as coisas foram ficando mais difíceis e o projeto foi encerrado. Até hoje não sei o por que. Será que as pessoas perderam o espírito natalino? Será que precisamos do Natal para se ter o espírito natalino?

Confesso que não sou fã do Natal, principalmente pelo fato de que as pessoas se tornam melhores apenas nessa data. Todos estão em uma mesma sintonia, fazer o bem…

Mas por que só no Natal?

Depositar dinheiro em caixinhas, para frentistas, para porteiros, para faxineiros, para entregadores, isso é Natal? Porque só no Natal?

20181217_amarelinhas03

Isso já não é aceitável…

Então é Natal, e o que você fez? O ano termina e começa outra vez... em que o espírito natalino só surge em dezembro, no mesmo mês que eu prometo que serei mais organizado no ano seguinte.

Isso mesmo… tudo se repete… igual ao CD da Simone nas lojas em época de Natal.

(NOTA DO EDITOR: eu pretendia incluir o clipe da música ao final do texto… mas em consideração ao Luiz, vou poupá-lo disto)

Crônicas ao Volante #1: Os passageiros que só falavam inglês

Muito bem amiguinhos do UBQ… começo aqui uma nova coluna onde vou contar algumas aventuras e desventuras de um hipotético motorista de aplicativo que encara o trabalho de transportar pessoas não só como um maneira de completar a renda familiar, mas também como uma grande experiência social, onde de alguma forma possam ser contados pequenos retalhos das vidas das pessoas… uma visão bem humorada com algumas liberdades literárias. Lembrem-se… são histórias inspiradas em fatos, mas livremente adaptadas para criar um efeito narrativo….

Sendo assim, divirtam-se com as ‘Crônicas ao Volante’…

20181217_cronicasaovolante

Recebo um chamado ali na altura do metrô Paraíso. É uma região próxima à Avenida Paulista que tem bastante movimento. E ali do viaduto é possível ver uma grande extensão da Avenida 23 de Maio.

O bairro tem suas origens ainda no século XIX, quando a Chácara pertencente à João Sertório foi vendida à família de Alexandrina Maria de Moraes que loteou a região, dando origem às primeiras edificações.

20181217_cronicasaovolante1

Ali por perto é possível aproveitar uma visita ao Centro Cultural São Paulo, ou então esticar até a Avenida Paulista e visitar a Casa das Rosas. Com efeito, ali também está localizada a Catedral Metropolitana Ortodoxa, inaugurada em 1954.

20181217_cronicasaovolante2

À minha espera, um casal… e foi ela quem chamou o aplicativo. Após as apresentações e definição do trajeto, iniciei a viagem. Alguns minutos se seguiram e o casal inicia uma conversação bem animada e intensa…

Com um pequeno detalhe… em inglês.

Pois é… até o momento do embarque, um casal típico brasileiro, conversando em português nativo e de repente… uma conversação em inglês…

Até aí, para mim seria indiferente… eles poderiam falar até em Bantu-Javanês que daria no mesmo para mim. A questão é que eu tenho fluência no idioma. E obviamente consegui entender praticamente tudo que eles conversavam.

Era uma conversa até enfadonha… o rapaz havia retornado naquele mesmo dia dos Estados Unidos (estava em Chicago) e depois a conversa seguiu para algo sobre o trabalho, pois eles comentavam e criticavam ativamente algum relatório que lhes fora apresentado naquela tarde.

Em determinado momento, cansei de acompanhar a conversa e tratei de me concentrar no trajeto da viagem. Era uma conversa privada e a troca de idioma talvez fosse uma forma de buscar alguma discrição ou até mesmo alguma privacidade.

A viagem seguiu até que notei um comentário da moça para o rapaz:

- Did you see that? Here in the profile it appears that he speaks English!!!

- Ah ... I would not worry about that. Probably he simply put it there to enrich the profile.

Enriquecer o perfil, é? Tá bom… enfim… a moça continuou:

- But did he understand anything we said?

- Probably not ... if he had understood a word, don’t you think he would’ve said something already?

Então, foi a minha vez de falar… e já que estávamos no idioma bretão, mantive a linha…

- Yes ... I understood several things you said. But by education and respect I just said nothing.

Silêncio perturbador…

Levou um tempo até que alguém dissesse algo. A iniciativa veio do rapaz:

- O senhor fala e entende inglês? – Desta vez ele falou em português mesmo.

- Perfeitamente! - Eu respondi… e em português, já que voltávamos ao idioma local.

Novo silêncio constrangedor. Pelo resto da viagem parecia ser mais um carro acompanhando um cortejo fúnebre. Ao chegarmos ao destino, anunciei nossa chegada em bom e prosaico português. O casal desembarcou, sem dizer ‘boa noite’ ou ‘obrigado’ ou qualquer outra manifestação de agrado ou desagrado… apenas o silêncio. Que em alguns momentos é uma língua universal bastante clara.

Levei alguns minutos para processar os fatos… talvez o embaraço tenha ocorrido pela situação, ou então porque talvez eles estivessem conversando algum assunto confidencial… eu não saberia dizer.

20181217_cronicasaovolante3

Mas o que sei é que logo em seguida comecei a rir… uma risada clara e efusiva…

E acho que qualquer um entenderia a graça… não importando o idioma…


10 de dezembro de 2018

Qual será a idade ideal? (Crônicas Amarelinhas #6)

Em tempos de classificação indicativa para as crianças, limitando o que elas podem ou não ver, presenciei uma cena, que me chamou muito a atenção e me deixou bem reflexivo.

20181210_amarelinhas

Indo para o trabalho, observei uma mãe levando suas filhas para escola (mais tarde descobri que era uma filha e uma sobrinha da mulher), tudo normal, até então…

As meninas tinham por volta de 5 ou 6 anos. O que tinha de diferente era o batom das meninas, bem chamativo por sinal. Duas meninas, de idade pré-escolar, com maquiagem, de manhã cedo?

Peço desculpa, pelo meu espanto, mas fiquei bem impressionado. Uma criança pode usar maquiagem? A partir de quantos anos uma criança pode usar? Por que uma criança usa maquiagem para ir à escola? Maquiagem, como é sabido por todos, é algo cultural, usado pela humanidade em várias culturas para demonstrar aos demais algum sentimento, característica ou vontade.

20181210_amarelinhas02

Na sociedade em que vivemos, maquiagem é usada para ocasiões de festas e eventos para ressaltar a beleza das pessoas. Geralmente tal prática é feita por adultos, pois ressaltar e valorizar a beleza é uma atitude de “gente grande”. Dessa forma, qual o motivo para que uma criança use maquiagem? Ressaltar a beleza, também?

Será que estamos deixando nossas crianças adultas muito cedo? Como educador, sempre tive ressalvas com relação as creches e escolas de educação infantil. Não por não confiar no trabalho dos professores, mas por colocarmos independência e maturidade muito cedo a uma criança. Ao mesmo tempo que estamos preparando ela para o futuro, podemos estar preparando ela para o futuro cedo demais.

20181210_amarelinhas02

No passado – e não muito distante – a criança sempre foi vista como uma adulto em miniatura. Apesar de tal conceito ter mudado, talvez a ideia antiga pode estar presente ainda. Seja no jeito de se vestir, de falar, de se maquiar ou se relacionar. Isso é por nossa causa, os ditos “adultos”.

Ser criança é tão bom. Uma fase maravilhosa de descobertas, experiências e vivencias novas, seja no mundo real, seja no mundo imaginário. Para que pulamos isso?

7da0846d1f8e1997941dc3357836b9a0

Depois de adultos, nos comportamos, agimos e pensamos como crianças. Nossa nostalgia está em todos os lugares. Por isso penso em outra questão, qual seria a idade ideal, para ser simplesmente uma criança?

7 de dezembro de 2018

O Último Discurso

A beca não era tão quente e ele não suava lá dentro como imaginava. Até ali corria tudo bem. Faltava uma meia hora para entrarem sob "Pompa e Circunstância" na casa de shows lotada para a formatura. Discretamente abriu mais uma vez o discurso de orador da turma que trazia nas mãos. Foi quando percebeu que a voz lhe faltou. Mágica e histericamente ele ficou mudo. Nem quando tossia conseguia emitir um ruído. Riu-se por dentro. Não estava nervoso. Não estava feliz. Não sabia como estava, até porque nos últimos anos não soubera como deveria estar.

20181207_michel

Achou por bem ir para uma fresta do grande recinto, por onde entrava uma corrente de vento. Havia no local bancos de cimento, como os de praça. Devia ser um fumódromo ou coisa parecida, mas ninguém estava ali. Só ele.

Abanou-se com o discurso até que sentiu uma corrente de ar fresco, quase uma rajada. Parou de se abanar e pousou a resma de papel no colo, como que a cuidar daquilo. Ouviu uma voz do seu lado:

- Aproveita que é o último!

Olhou para o lado e não viu nada nem ninguém…

Foi quando percebeu que aquela voz lhe era muito familiar. Olhou de novo. Um senhor gordalhufo, calvo, de óculos,com uma barba farta, testa suada sentado estava do seu lado no banco, espalhado, meio recostado, as pernas entreabertas, enfim, uma postura desleixada.

Ficaram se entreolhando sem expressão nas faces. Ele assustadíssimo, pensou que além de mudo dera para alucinar. Pensou em procurar um trago. Mas de alguma maneira a expressão respeitosa do outro ao seu lado o acalmava…

Perguntou a ele:

- Quanto tempo se passou?

- De hoje, mais dezenove anos.

- Então hoje, para você, é dezesseis de dezembro de dois mil e dezoito.

- Até agora era. Aí eu decidi vir dar um pulinho aqui.

Ficara ali se olhando… e se alguma emoção pudesse ser extraída ali, era a curiosidade.

- Ficou interessante a barba… Nunca imaginei!

- É boa para esconder as bochechas. Chega numa hora que fica difícil tirar.

- Entendi. Você engordou mesmo. Muito!

- Calma aí, você já está gordo... Pesa quanto?

- Noventa.

- Hoje tô com cento e dez. Praticamente um quilo por ano.

- Nossa... nunca imaginei que passaria dos cem! Mas o cabelo tá resistindo. Achei que ia ficar todo careca.

- Continua a Finasterida. Talvez a coisa mais disciplinada que você fez na vida. Você vai tomar ainda por uns bons anos. Te devo essa!

E se riram. E fizeram um silêncio meio longo.

- Por que você voltou?

- Para que você me visse.

- E por que eu teria que te ver? Qual o problema com você? Tirando os óculos...

- Teve uns piripaques cardiológicos, nada importante… Os óculos são por conta do glaucoma. Mas não incomodam. Quer usar um pouco?

- Não, não. Está tudo bem, tá tranquilo.

Novo silêncio…

- É que... eu sei que eu, quer dizer, a gente, não diz diretamente as coisas, mas se você tem algo a me dizer, eu preferia que não perdesse a viagem, sabe como é né? Daqui a pouco vai acontecer. Não teve jeito, vai acontecer.

- Jeito teve, porra! – A frase saiu num tom alto. – Tudo isso em volta. Esse discurso aí no seu colo, essas coisas que você fez usando essa retórica, tudo isso foi para tornar mais suportável isso aí. Foi para te dizer para você mesmo que você era viável, que não era tão burro assim, foi para te inserir nesse meio aí, esse mesmo meio de onde você vai começar a sair agora. Esse foi o jeito que você encontrou para levar tudo isso. Por esta razão eu disse que esse será seu último discurso. Não vai fazer mais sentido precisar disso depois de hoje…

- Pode ser. Faz sentido. Mas... vai acontecer o quê? Eu vou ser o quê?

- Vai seguir essa profissão.

Ele se abanou com o discurso de novo. Não entendia se estava aliviado ou tenso com aquela notícia. Mas resolveu perguntar:

- Mas... se não houver mais essas coisas, como é que eu posso dizer, 'por fora', eu vou levando como?

- Levando.

- Como?

- Levando… cacete! Fica tranquilo! Vai ser mais fácil que você pensa.

- Tá. Posso te perguntar uma coisa, assim, não se ofenda.

- Vamo lá… pergunte!

- Para onde eu, quer dizer, você... sei lá, nós fomos nesse tempo?

- Você fala como? Viajar?

- É!

- Você tem passaporte?

- Não. Calma, eu me formo hoje. – E viu que ou outro tentava segurar o riso...

- O que foi? Você também não tem?

- Eu acho que a resposta é 'continuamos não tendo'...

- Vixe... então não fomos a lugar nenhum.

O outro respondia um "não" veemente com a cabeça.

- Tá... eu preferi investir em patrimômio?

O outro sorriu de forma generosa, sem sarcasmo.

-Eu... na sua idade... juntei o quê?

- Eu prefiro dizer que você vive bem e não passa necessidade. Fique tranquilo quanto a isso.

Mas ele se inquietava cada vez mais.

- E... quanto a filhos? Não, né?

- Vão demorar, fique em paz. Vão demorar bem. Mas você vai gostar, vai gostar bem. Você vai ver.

- E quem sabe eles me colocam no eixo, trazem sentido a isso aqui.

- Agora você está exagerando. Sentido é uma coisa que você talvez...

Neste momento ele sentou-se com solenidade no banco, tirou os óculos, secou os olhos e pareceu fixar o olhar ao longe.

- Tá na hora de eu ir embora.

- Peraí, fica mais, assiste aí!

- Eu sei o que vai acontecer aí.

E se olharam demoradamente e sem emoção…

- Antes de eu ir, e de você ir compor a fila de entrada, eu poderia sugerir uma alteração no seu discurso?

- Claro! Afinal é o último. Que seja nosso!

Ele trazia uma caneta e estendeu ao formando, advertindo:

- Pega essa citação final e risca, vamos colocar outra. Eu cito e você ouve, depois, se você gostar eu dito e você escreve, beleza?

- Pode ser…

- Vamos lá. Eu preciso que você feche os olhos enquanto ouve. Depois eu dito, pode deixar.

Ele fechou os olhos. O outro começou:

- Nunca fiz por menos, sobretudo depois de determinada época de minha vida, no dia em que entendi que devia tentar tudo… porque só há um homem respeitável: aquele que realiza o máximo do potencial de personalidade que a natureza lhe deu.

E continuou…

- Que isso seja pouco porque o destino lhe foi parco em dádivas e talentos não o desmerece. O que desmerece um homem é a humildade, é o não-tentar, o não se descobrir, não se pesquisar, o não saber para que veio e que notícias traz. Eu já sei a que vim e o grito o mais alto que for possível. Se não me entenderem… azar o meu algumas vezes e sorte minha outras tantas.

Ele, após ouvir aquilo, não conseguia dizer nada por conta de um travo na garganta. Só conseguiu após alguns minutos dizer "você pode me ditar isso?" Mas o que ouviu foi um grito:

- Acorda!!! O que você está fazendo aí? Vai começar!!!

Era o chefe do cerimonial desesperado. Ele olhou no banco, do lado dele não havia mais ninguém. Por um momento lhe adveio um pânico. Como se lembraria da citação?

Foi tomar seu lugar na fila como se fosse cumprir uma sentença. Antes deixou a caneta no banco. Não lhe pertencia, ou pertencia mas não ainda. Ouviu o mestre de cerimônias anunciar a Mesa Solene da cerimônia de Colação de Grau. Automaticamente folheou o discurso. Tomou coragem foi ler a última página, o encerramento, a citação final. Lá estava escrito "Nunca fiz por menos...” e todo o resto que acabara de ouvir. Como se ele tivesse digitado horas antes.

Sentiu finalmente uma calma consoladora. A música soou, a fila começou a andar, os aplausos aumentavam na medida em que ele chegava no pórtico de entrada da platéia. No fundo, pensava que o novo arremate tornava o discurso mais eloquente, e isso o deixava feliz. No fundo, sabia que seria o último.

20181207_michel01

No fundo, como todos os dias a partir daquele, e pelos próximos dezenove anos, só queria que tudo acabasse bem para poder ir dormir…

5 de dezembro de 2018

Baco Exu do Blues - "Bluesman" (Disco da Semana #48)

Buenas,

Semana de provas finais e fechamento de notas no colégio, correria total e irrestrita, é a hora daquele: "Prô, arredonda meu 4,2 pra 6,0?". Pois é… isso não é lenda, acontece, e muito... e nessa semana de encheção de saco "alunística", alguns deles nos trazem a luz alguns músicos e canções pra lá de bacanas. E é sobre um desses "presentes" que falo nessa semana.

20181205_discodasemana

Ultimamente as maiores surpresas na música nacional não estão aparecendo via, rock ou pop, ou reggae (o que seria o comum há alguns anos atrás), algumas das coisas mais legais que aconteceram no cenário brasileiro vem do rap, mais precisamente da Bahia.

Pra vocês verem como essa cena é rica e tá botando um monte de coisa bacana na praça, será a segunda vez em menos de um mês que me cai às mãos (ou aos ouvidos, como queiram), mais uma pérola do rap baiano, o segundo trabalho de Diogo Ferreira Moncorvo, mais conhecido pela alcunha de "Baco Exu do Blues".

20181205_discodasemana01
“Mas Junior, o disco não é de rap? Por que o blues no nome?”
Pois é, também me fiz a mesma pergunta, e só consegui obter a resposta ao escutar o álbum. Faz parte total do conceito do disco, que fala rigorosamente do empoderamento do povo negro.

Pra descarregar a sua metralhadora verborrágica, usa bases e samples  de extremo bom gosto, ponto pro DJ Bebezão que seleciona beats de funk dos anos 70, de blues (olha a ironia aí), de latinidades, regionalismos e de rock, a faixa "Flamingos" acaba com um belíssimo solo de guitarra. Seu caldeirão de referências e suas letras, diretas como um soco no nariz, já começaram a chamar a atenção fora da bolha do rap nacional (seu disco de estreia já ganhou crítica de "disco do ano" em um prêmio bem conhecido em 2017), chegando até a ganhar curtida da própria Beyoncè (a quem homenageia na faixa "Me desculpe Jay-Z").

Mas não é só sobre empoderamento o álbum, ele também fala de sexo, poder, religião, sociedade e amor, mas de uma maneira não ortodoxa (mas fala do amor do jeito normal também, não se preocupem), usa o sentimento como metáfora para algumas situações de depressão.

20181205_discodasemana02

Escreve de uma maneira pra lá de esperta para mostrar o seu ponto de vista acerca do mundo e das relações humanas, além de meter o dedo na ferida do preconceito racial que abunda por nossas terras mesmo após 130 anos do "fim da escravidão", como na faixa que dá nome ao álbum:
"Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos
O primeiro ritmo que tornou pretos livres
Anel no dedo em cada um dos cinco
Vento na minha cara eu me sinto vivo
A partir de agora considero tudo blues
O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues
O funk é blues, o soul é blues
Eu sou Exu do Blues
Tudo que quando era preto era do demônio
E depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de Blues
É isso, entenda
Jesus é blues
Falei mermo".
Quer entender como é possível fazer rap de maneira brasileira, com a nossa malemolência, sem perder a crueza, falando de amor, sem perder a virulência nas críticas, clica aqui e ouça já esse discaço. Obrigatório!!! Daqueles que mudam a sua visão sobre um ritmo, candidatíssimo a melhor disco do ano.

Que o orixá escolhido no seu nome artístico, o ajude a abrir os seus caminhos. Vida longa a mais um grande cronista da vida brasileira que surge por aqui.

Logo menos tem mais.

4 de dezembro de 2018

Mega Man X – É a ferro e Fogo….

Fala rapaziada do UBQ… Tudo “belesma”? Bora seguindo com mais uma semaninha de jogos aqui na coluna. Desta vez trago para vocês o robozinho mais “tchuco” que eu conheço e que abriu a franquia no mundo dos 16 bits. Estou falando do reploid mais querido da galera… o Mega Man.

20181204_borajogar

Sim, amiguinhos!!! Hoje é dia de falar dele mas não do que conhecemos, mas sim da sua versão futura… o Mega Man X ou como muitos chamam apenas “X”.

[ Sobre o jogo ]

Este game chegou no Super Nintendo em 1994 e trouxe uma nova franquia para nosso amiguinho. O game se passa em 21XX (porque ninguém sabe exatamente o ano já que a porra está uma bagunça) e mostra novos personagens.

20181204_borajogar002

Vamos lá… Aqui não temos mais o nosso querido e carismático Dr. Light (pai do Mega Man e do Mega Man X) mas sim Dr. Cain, paleontólogo responsável pela escavação que encontra o antigo laboratório do Dr. Light e consequentemente a capsula em que estava “X”.

A partir daí, Dr Cain estuda toda a construção por parte do “primeiro” novo reploid e começa a desenvolver máquinas semelhantes ao X, capazes de agir com livre arbítrio. Tudo ia bem até que algumas começaram a ficar doidonas e se rebelaram contra os humanos, formando um grupo chamado Mavericks e causando um baita de um estrago na sociedade.

Para enfrentar esse grupo foi criada uma equipe chamada de “Maverick Hunters” (Caçadores de Mavericks, em tradução livre) liderado por um reploid bem poderoso e famoso de nome “Sigma” para auxiliar a raça humana na luta contra os “robôs do mal”. Sobre seu comando, os caçadores estavam conseguindo trazer vantagem para as pessoas trazendo esperança sobre o fim da guerra reploid.

Porém, como nem tudo são flores, Sigma rebela-se e se volta contra os humanos.

20181204_borajogar003

Sim, um vírus criado pelo Dr. Willy, vilão da série Mega Man e maior inimigo do Dr. Light, é o responsável por deixar os robôs doidões e por isso a bagaça toda está acontecendo.

Para liderar os caçadores aparece Zero, outro Reploid bonzinho na pegada do Mega Man X (mas que na minha opinião é de longe o melhor personagem de toda série) e, junto com X pretende acabar com toda a treta que Sigma vem causando.

20181204_borajogar004

[ A jogabilidade ]

Rapaziada o jogo é animal! De toda Franquia X é um dos que mais gosto junto com o X4. Assumo que depois do X5 eu parei de jogar porque virou palhaçada…

Não existe nada de muito novo aqui. O X continua sendo um jogo de plataforma, você atira com seu Mega Buster, pode acumular poder e soltar um tiro mais forte, continua “copiando” o poder dos mestres que destrói porém, diferente da série clássica, em Mega Man X você começa a encontrar novas armaduras deixadas pelo Dr. Light.

20181204_borajogar005

O querido doutor deixou espalhadas pelo mundo diversas cápsulas contendo um upgrade da armadura (conhecida como armadura Branca) que permite no primeiro game a dar um dash (diferente do “carrinho” que o Mega Man dava), acumular mais níveis de tiro, entre outras coisas.

Vale muito a pena jogar porque Mega Man é difícil de enjoar. Prova disso é o fato dele ter atravessado gerações de games, começando lá no 8 bits chegando nas atuais plataformas PC/XBOne/PS4.

Uma curiosidade legal do game é que ele foi reformulado para uma versão “3D” lançado para o PSP com o nome de “Mega Man Maverick Hunters”. Mesmo jogo, mesma história e mesmos personagens. O que muda são os gráficos e as localizações das cápsulas de armadura. Vale a pena jogar também (Tenho o do Super Nintendo e do PSP, pronto falei).

20181204_borajogar006

Outra coisa é que “X” solta Haduken... O QUE?????

Isso mesmo! Se você pega todas as partes da armadura branca e faz uma sequência bem precisa de ações na fase do ‘Armored Armadillo’, você consegue encontrar a ultima cápsula de armadura do jogo que apenas te dá o poder de soltar uma espécie de “Haduken” (Raduqui, Rabugueti, Humburguer, Aduquem, ou sei lá você chama na sua casa).

Para isso basta, após pegar a cápsula, fazer a mesma mecânica do golpe do Ryu em ‘Street Fighter II’: Baixo, frente e soco (que aqui é o botão de tiro) e Voilá! Você solta o Haduken com as mãozinhas aberta e tudo.

20181204_borajogar007

O golpe só pode ser disparado se o “X” estiver com a barra de vida em 100%, mas se você acertar qualquer inimigo – eu disse qualquer inimigo mesmo incluindo o Sigma e os demais chefes – você os derrota com apenas um hit. Legal não, é?

[ Veredito ]

Enfim rapaziada, joguinho bom, maroto e para quem quiser, mas não tiver o Super Nintendo ou o PSP, basta procurar nas lojas de game ou na rede do seu console preferido pois recentemente foi lançado o ‘MegaMan X collection’ que traz na primeira parte os jogos de 1 ao 4 e na segunda de 5 a 8.

Vale um selinho? Vale!

20181204_borajogar008

Vou ficando por aqui, obrigado pela atenção e tchauzinho.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...