17 de dezembro de 2018

Crônicas ao Volante #1: Os passageiros que só falavam inglês

Muito bem amiguinhos do UBQ… começo aqui uma nova coluna onde vou contar algumas aventuras e desventuras de um hipotético motorista de aplicativo que encara o trabalho de transportar pessoas não só como um maneira de completar a renda familiar, mas também como uma grande experiência social, onde de alguma forma possam ser contados pequenos retalhos das vidas das pessoas… uma visão bem humorada com algumas liberdades literárias. Lembrem-se… são histórias inspiradas em fatos, mas livremente adaptadas para criar um efeito narrativo….

Sendo assim, divirtam-se com as ‘Crônicas ao Volante’…

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Recebo um chamado ali na altura do metrô Paraíso. É uma região próxima à Avenida Paulista que tem bastante movimento. E ali do viaduto é possível ver uma grande extensão da Avenida 23 de Maio.

O bairro tem suas origens ainda no século XIX, quando a Chácara pertencente à João Sertório foi vendida à família de Alexandrina Maria de Moraes que loteou a região, dando origem às primeiras edificações.

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Ali por perto é possível aproveitar uma visita ao Centro Cultural São Paulo, ou então esticar até a Avenida Paulista e visitar a Casa das Rosas. Com efeito, ali também está localizada a Catedral Metropolitana Ortodoxa, inaugurada em 1954.

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À minha espera, um casal… e foi ela quem chamou o aplicativo. Após as apresentações e definição do trajeto, iniciei a viagem. Alguns minutos se seguiram e o casal inicia uma conversação bem animada e intensa…

Com um pequeno detalhe… em inglês.

Pois é… até o momento do embarque, um casal típico brasileiro, conversando em português nativo e de repente… uma conversação em inglês…

Até aí, para mim seria indiferente… eles poderiam falar até em Bantu-Javanês que daria no mesmo para mim. A questão é que eu tenho fluência no idioma. E obviamente consegui entender praticamente tudo que eles conversavam.

Era uma conversa até enfadonha… o rapaz havia retornado naquele mesmo dia dos Estados Unidos (estava em Chicago) e depois a conversa seguiu para algo sobre o trabalho, pois eles comentavam e criticavam ativamente algum relatório que lhes fora apresentado naquela tarde.

Em determinado momento, cansei de acompanhar a conversa e tratei de me concentrar no trajeto da viagem. Era uma conversa privada e a troca de idioma talvez fosse uma forma de buscar alguma discrição ou até mesmo alguma privacidade.

A viagem seguiu até que notei um comentário da moça para o rapaz:

- Did you see that? Here in the profile it appears that he speaks English!!!

- Ah ... I would not worry about that. Probably he simply put it there to enrich the profile.

Enriquecer o perfil, é? Tá bom… enfim… a moça continuou:

- But did he understand anything we said?

- Probably not ... if he had understood a word, don’t you think he would’ve said something already?

Então, foi a minha vez de falar… e já que estávamos no idioma bretão, mantive a linha…

- Yes ... I understood several things you said. But by education and respect I just said nothing.

Silêncio perturbador…

Levou um tempo até que alguém dissesse algo. A iniciativa veio do rapaz:

- O senhor fala e entende inglês? – Desta vez ele falou em português mesmo.

- Perfeitamente! - Eu respondi… e em português, já que voltávamos ao idioma local.

Novo silêncio constrangedor. Pelo resto da viagem parecia ser mais um carro acompanhando um cortejo fúnebre. Ao chegarmos ao destino, anunciei nossa chegada em bom e prosaico português. O casal desembarcou, sem dizer ‘boa noite’ ou ‘obrigado’ ou qualquer outra manifestação de agrado ou desagrado… apenas o silêncio. Que em alguns momentos é uma língua universal bastante clara.

Levei alguns minutos para processar os fatos… talvez o embaraço tenha ocorrido pela situação, ou então porque talvez eles estivessem conversando algum assunto confidencial… eu não saberia dizer.

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Mas o que sei é que logo em seguida comecei a rir… uma risada clara e efusiva…

E acho que qualquer um entenderia a graça… não importando o idioma…


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